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A importância de saber perder


Tim Maia compôs e gravou em 1970 a canção Azul da cor do mar, uma das mais belas de sua carreira, que traz o seguinte verso: “Na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”. A ideia contida nesse verso é a de que haveria uma predestinação para cada indivíduo. Mas a beleza artística da canção não corresponde à realidade.

A despeito dessas diferenças, a crença de que haja uma predestinação desempenha um importante papel na determinação dos rumos da vida de uma pessoa. Quando interpretamos a maioria de nossos problemas como resultado de algum tipo de predestinação e atribuímos sua causa a alguma força externa a nós e que age deliberadamente para nos prejudicar é provável que mais e mais problemas passem a acontecer. Há um termo em Psicologia que define esse processo como uma profecia autorrealizável, que é a concretização de um prognóstico pela crença consistente em sua ocorrência. Uma pessoa que acredita ter nascido para sofrer provavelmente sofrerá bastante ao longo de sua vida por eventos diversos que ela sempre interpretará como elementos comprobatórios de sua crença. Como a pessoa acredita que não há nada que ela possa fazer a respeito (tudo está fora de seu controle), ela deixa de buscar soluções para os problemas que enfrenta. Se o problema veio de fora, a solução também deve vir, pensa a pessoa; uma questão de justiça.

No extremo oposto da ideia de que tudo está predestinado encontra-se a noção também equivocada de que tudo depende de seu desempenho. Chamemos esse processo de crença de controle máximo. Em princípio trata-se de algo que pode ajudar a pessoa a obter conquistas pessoais mas, ao longo do tempo, produz uma dificuldade em lidar com o imprevisto e o revés. A pessoa nessa condição tende a esperar que as conquistas correspondam ao seu esforço. Isso é perigoso porque há muitos elementos imprevisíveis que ocorrem ao longo da vida de uma pessoa e que estão fora de seu controle. Se as expectativas da pessoa não contemplam a possibilidade de revés incontrolável, a frustração será enorme quando algo ruim acontecer. Isso produz culpa que, por sua vez, tende a se converter em depressão.

A Física estuda uma propriedade dos materiais que representa sua capacidade de voltar à forma original depois de sofrer algum tipo de força. Essa propriedade é a resiliência. A Psicologia emprestou da Física esse termo para descrever a capacidade que uma pessoa tem de reagir de maneira adaptativa a situações adversas. Tanto no caso da crença de predestinação quanto no caso da crença de controle máximo o que observamos é uma diminuição da capacidade de resiliência ao longo da vida. Montei um modelo gráfico para entendermos a argumentação toda em conjunto:

Está representado na figura o grau de conquistas (ou de realização pessoal) ao longo da vida de três indivíduos hipotéticos. A vida do indivíduo A é uma vida que ninguém tem, na qual as conquistas se acumulam num crescente constante. Seria uma vida na qual absolutamente tudo saiu como planejado e na qual não houve perdas. Uma vida que só é possível na literatura e na fantasia.

A vida do indivíduo B é uma vida factível e funcional, na qual momentos de conquistas se alternaram com momentos de perdas. O indivíduo B soube aceitar as perdas que enfrentou e provavelmente aprendeu com elas. Ele certamente soube manejar suas expectativas e entender que nem tudo sairia como planejado. Aí está um exemplo de resiliência em ação.

A vida do indivíduo C começou com conquistas consistentes. Houve um revés no segundo terço que o deixou estagnado por algum tempo até a ocorrência de um segundo e maior revés, após o qual o individuo passou a apenas perder o que já conquistara. Este indivíduo provavelmente perdeu toda a motivação no segundo evento de revés por não aceitar aquela perda.

Interessante notar que querer ser como o indivíduo A levará provavelmente à condição do indivíduo C. Tenho um paciente cujo pai construiu em uma empresa multinacional uma carreira brilhante que culminou com um cargo no corpo executivo da companhia. Ele tinha reconhecimento pela dedicação à empresa que vinha desde o início de sua idade adulta. Nada podia dar errado, ele pensava. Até que um dia ele foi demitido por não ser mais interessante aos objetivos da empresa, mesmo depois de mais de duas décadas de dedicação. Foi um enorme baque. Depois de um tempo de assimilação mínima da surpreendente demissão, ele resolveu procurar um novo emprego. O salário e as condições de trabalho que ele tinha na multinacional eram tão elevados que nenhuma proposta recebida chegava perto da realidade anterior. Por conta disso ele foi recusando sucessivas propostas até que encontrasse a ideal. Justamente por não ter ainda aceitado o revés ele cometeu esse segundo equívoco, que foi ignorar a realidade do mercado naquele momento. Depois de algum tempo sem trabalhar esperando o posto ideal ele passou a ser cada vez menos interessante para o mercado, já que não pode se desenvolver naquele intervalo. O que aconteceu foi que ele deixou de ter qualificações até mesmo para os postos que ele havia recusado anteriormente. Daí por diante não é difícil imaginar que novos problemas se acumularam, como dificuldades financeiras, doença, crises familiares. Se ele tivesse aceitado alguma das primeiras propostas de emprego mais modestas, sua carreira provavelmente passaria por uma renovação que o levaria a um posterior crescimento. Uma pena.

Quando se enfrenta um revés é bastante oportuno olhar para esse gráfico e imaginar o que pode acontecer adiante. Manter-se na condição B é uma arte desafiadora no início mas cada vez mais natural com o passar do tempo. Não cobrar a si mesmo por resultados e conquistas é o primeiro passo na jornada. Devemos buscar aquilo que realmente nos importa e deixar de lado o que se impõe como cobrança social. Conquista por conquista não nos serve de nada. O que realmente importa normalmente está nos vínculos e no que experimentamos de forma compartilhada nesses vínculos (família, amigos, comunidade, sociedade…). Boa semana a todos!

Matéria extraída parcialmente do link: https://vejasp.abril.com.br/blog/terapia/a-importancia-de-saber-perder/


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